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Dr. Henrique Dircksen Melo Neurologista Agendar consulta

Neurodesenvolvimento

Meu filho não fala: quando procurar avaliação

“Ele não fala como as outras crianças.” Cada uma tem o seu tempo — mas existe um ponto em que esperar deixa de ser prudência.

Por Dr. Henrique Dircksen Melo — Médico Neurologista · CRM-SC 20098 · RQE 17471

Se você chegou até aqui, provavelmente é noite, a casa está quieta e você está com o celular na mão digitando alguma variação de "meu filho de dois anos não fala".

Eu conheço essa busca. Ela chega ao meu consultório quase toda semana, e quase sempre acompanhada da mesma frase: "todo mundo diz que eu estou exagerando".

Este texto é para responder com honestidade — sem minimizar a sua preocupação e sem transformá-la em pânico.

Comecemos pelo que é verdade nas duas pontas

É verdade que cada criança tem o seu tempo. A variação normal no desenvolvimento da linguagem é enorme. Existem crianças que falam pouco até os dois anos e depois deslancham, sem que nada de errado tenha acontecido. Quem diz isso a você não está inventando.

E é verdade que "esperar para ver" tem limite. Existe um ponto a partir do qual a espera deixa de ser prudência e passa a ser tempo perdido — justamente na fase em que o cérebro mais responde a estímulo.

O que resolve a contradição não é opinião de ninguém: são os marcos do desenvolvimento. Eles não servem para dar diagnóstico. Servem para dizer quando vale olhar com mais cuidado.

Marcos da linguagem, por idade

Estes são pontos de referência aproximados. Uma criança pode estar um pouco atrás em um deles e estar perfeitamente bem.

Por volta dos 12 meses - Balbucia com entonação, como se estivesse conversando - Responde ao próprio nome - Aponta para pedir ou para mostrar algo - Diz uma ou outra palavra com intenção

Por volta dos 18 meses - Fala em torno de dez a vinte palavras - Aponta para mostrar coisas que achou interessantes — não só para pedir - Entende ordens simples: "pega a bola", "dá para a mamãe" - Imita gestos e sons

Por volta dos 24 meses - Tem cerca de cinquenta palavras - Começa a juntar duas: "quer água", "cadê papai" - Aponta partes do corpo quando pedido

Por volta dos 36 meses - Fala frases de três ou mais palavras - Pessoas de fora da família entendem boa parte do que ela diz - Faz perguntas

Os sinais que pedem avaliação sem esperar

Independentemente da idade, alguns sinais não devem ser observados por mais uns meses:

  • Perda de habilidades que a criança já tinha. Falava algumas palavras e parou. Olhava e agora não olha mais. Isso se chama regressão e é o sinal mais importante deste texto inteiro.
  • Não balbucia até os 12 meses
  • Não aponta nem faz gestos até os 12 meses
  • Nenhuma palavra até os 16 meses
  • Não junta duas palavras até os 24 meses
  • Não responde ao próprio nome, mesmo ouvindo bem
  • Não olha para onde você aponta

Falar não é a única forma de comunicar

Aqui está a parte que costuma passar despercebida, e que muitas vezes importa mais do que a contagem de palavras.

Uma criança pode ter vocabulário e ainda assim ter dificuldade de comunicação. Vale prestar atenção se ela:

  • Fala, mas quase não usa a fala para interagir — mais para nomear ou repetir
  • Repete falas de desenhos ou frases prontas fora de contexto
  • Não sustenta uma conversa de mão dupla, mesmo curta
  • Leva você pela mão até o objeto, em vez de apontar ou pedir
  • Não busca o seu olhar para dividir uma descoberta
  • Não brinca de faz de conta

O contrário também acontece: crianças que entendem tudo e falam pouco. Nesse caso a compreensão preservada é um bom sinal — mas ainda assim vale avaliar.

Cinco explicações que a gente ouve e que não se sustentam

"Menino fala mais tarde." Existe pequena diferença estatística entre meninos e meninas, mas ela é pequena demais para justificar meses de espera. Usar o sexo da criança como explicação é o motivo mais comum de diagnóstico tardio.

"É porque em casa se fala duas línguas." Crianças bilíngues não falam mais tarde. Elas podem misturar as línguas por um tempo, o que é normal e passa. Bilinguismo não causa atraso.

"O irmão fala por ele." Isso pode reduzir um pouco a necessidade de falar, mas não impede o desenvolvimento da linguagem. Se a criança não fala, o irmão não é a causa.

"É a tela." Tempo excessivo de tela atrapalha, sim, porque substitui interação — e a linguagem se aprende na troca com gente, não em vídeo. Mas raramente é a causa isolada. Tirar a tela e esperar mais seis meses é uma aposta cara.

"O pai também falou tarde." História familiar de atraso é informação útil e realmente aumenta a chance de ser uma variação benigna. Mas ela explica depois, não antes — e não substitui a avaliação.

O que acontece numa avaliação

Muitos pais adiam por medo do que possam ouvir. Vale saber que a consulta é mais tranquila do que se imagina.

Primeiro, a audição. É o passo inicial de qualquer investigação de atraso de fala, e o mais negligenciado. Criança que não escuta bem não desenvolve fala bem — e perdas auditivas parciais passam despercebidas em casa, porque a criança responde a alguns sons e não a outros.

Depois, a história do desenvolvimento. Gestação, parto, primeiros meses, quando sentou, quando andou, como brinca, como se comunica quando quer algo. Quem conta são vocês. Se puderem, levem a caderneta e vídeos curtos do dia a dia — brincando, em casa, num momento de birra. Vídeo mostra o que o consultório não mostra.

Observação e exame. Observo como a criança brinca, como se comunica, como reage. E faço o exame neurológico completo.

Instrumentos estruturados, quando indicados, para transformar impressão em dado comparável ao longo do tempo.

E uma conversa de devolutiva, explicando o que encontrei, o que ainda não sei e quais são os próximos passos.

Muitas vezes a conclusão é tranquilizadora: variação normal, acompanhar e reavaliar. Quando há algo a tratar, o encaminhamento à fonoaudiologia e às demais terapias começa cedo — e é isso que faz diferença.

Por que não esperar

Os primeiros anos são o período de maior plasticidade do cérebro — a fase em que ele mais se reorganiza a partir de estímulo. É por isso que intervenção precoce funciona melhor: não porque a criança "perde a chance" depois, mas porque nessa janela o mesmo esforço rende mais.

Existe ainda um argumento simples: avaliar não faz mal. Se estiver tudo bem, vocês saem com essa informação e param de perder noite de sono. Se houver algo, vocês saem com um plano. Nos dois casos, sair é melhor do que ficar.

Uma palavra para vocês

Procurar avaliação não é rotular o seu filho. Não é desistir dele, nem antecipar tragédia. É fazer o que pais fazem: verificar.

E se alguém da família disser que você está exagerando, considere que talvez você simplesmente esteja mais atento. Quem convive todos os dias percebe antes — e essa percepção, na minha experiência de consultório, acerta muito mais do que erra.

Este texto tem finalidade informativa e educativa. Ele não substitui a consulta, o diagnóstico nem o tratamento realizados por um médico. Se você se identificou com o que leu, procure avaliação — presencialmente, com um profissional que possa examinar o seu caso.

Vamos conversar

O primeiro passo é marcar a consulta.

Se algum sintoma está preocupando você ou alguém da sua família, não precisa carregar isso sozinho. Me mande uma mensagem contando o que está acontecendo — a secretaria responde, esclarece as dúvidas sobre o atendimento e encontra o melhor horário para você.

Dr. Henrique Dircksen Melo — Neurologista  ·  CRM-SC 20098  ·  RQE 17471  ·  Secretaria: segunda a sexta, das 8h às 18h

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